Eu tinha uma pomba e a doce pomba morreu;
E pensava eu que morrera de mágoa;
Oh, que podia magoá-la? As suas patas presas
Por um fio de seda que eu próprio teci...

John Keats


11.9.19

a procura da semelhança

quando Andreia entrou em minha casa com um sorriso que desmentia a doença recente, senti o alívio, como um fio de mel, a escorrer lentamente dentro de mim. não se tinha rendido, pensei. e estava bonita, apesar das olheiras pronunciadas e da roupa a sobrar no corpo. trazia os cabelos soltos e uma saia branca, comprida, que revoluteava à volta das pernas como espuma. na luz oblíqua do fim de tarde, na varanda com o mar ao fundo, mantivemos o nosso gosto pela conversa. rimos, gracejámos, suspiramos, quase chorámos. a vida corre veloz, mas um ano não é nada para quem gosta de se encontrar. as coisas surgiam agora a uma luz diferente, contava-me, e, embora se visse obrigada a viver com uma lentidão anteriormente desconhecida,  todos os instantes eram uma dádiva. enquanto a ouvia e observava os pontinhos de luz nos seus olhos castanho-avelã, a delicadeza dos arabescos que desenhava no ar, interrogava-me sobre o que a tornava tão especial. conhecia-a desde os tempos de faculdade e durante todos estes anos não me recordava de alguma vez se ter tentado diferenciar, pôr em evidência, ou provar fosse o que fosse. mesmo quando discordávamos, e discordamos em várias matérias, era sempre a convergência que ela promovia. e foi nesse momento que tomei consciência do que nela marcava a diferença; o que a tornava tão singular era precisamente a procura da semelhança nos outros.