Eu tinha uma pomba e a doce pomba morreu;
E pensava eu que morrera de mágoa;
Oh, que podia magoá-la? As suas patas presas
Por um fio de seda que eu próprio teci...

John Keats


14.10.19

o silêncio do mar

encostada à janela, bebendo o meu primeiro café do dia, afago com o olhar a faixa de mar que exibe uma enganadora calma prateada. comovente e incompreensível, evoca um vasto silêncio, que guarda dentro de si todos os ritmos secretos. por baixo da sua superfície brilhante, submerso, há um mundo que avança e recua, que flui e reflui. intricados labirintos, florestas de algas rendilhadas agitando-se lentamente, cidades de peixes, caranguejos que fogem para dentro de rochas,  tartarugas que pastam, seres que convergem e divergem, procurando o lugar a que pertencem. há sombras, silhuetas, abalos, vibrações, buracos, bocas que engolem e cospem. são vidas escondidas, energia pura, a fervilhar na barriga do mundo. 

é no silêncio, esse lugar  que oferece resistência à superficialidade das palavras, e que eu gosto de visitar, que compreendo esse movimento contínuo e secreto. o silêncio não encobre vozes; amortece-as, demora-as, torna-as mais profundas. é uma corrente espessa e abundante que aumenta e diminui o tamanho das coisas, que as escurece ou faz refulgir em cores vivas, velando umas e revelando outras. não há outra forma de as integrar no todo. e é assim que, no mais fundo de mim, onde as ondas me vêm morrer no peito, insinuando novos começos, descubro a paz que sucede à tempestade.

11.10.19

erro de casting

no meio do quadrado de luz morna refletido pela janela no sofá, os gatos dormem encostados e enroladinhos, formando duas circunferências tangentes, tão perfeitinhas, que poderiam ter sido desenhadas por um compasso. um dos gatos dorme com uma pata a tapar os olhos e um sorriso nos lábios (juro!), como se estivesse deitado sobre um relvado ondulante que lhe afaga o pelo. o outro ressona baixinho, as orelhas estremecendo de vez em quando. sonhará? e o que sonhará? que imagens fervilharão sob o seu corpo quieto e silencioso? caçará moscas? correrá atrás de um rato, sempre o mesmo, que o persegue em sonhos há vários meses? quiçá, vidas? já Aristóteles contava que cães, gatos e cavalos sonhavam, e, séculos mais tarde, mesmo sem certezas sobre o que ocorre na profundidade onírica dos animais,  tal teoria não foi ainda refutada, que eu saiba. por fim, incapaz de continuar a resistir a tão desarmante fofura, decido arrancá-lo do sonho, roçando ao de leve um pé descalço no seu pelo quente e macio. Picasso - é este o seu nome -, não dando mostras de perturbação, levanta o focinho cor-de-rosa de bigodes brancos e, de olhos semicerrados, fareja-me o pé com delicadeza. depois, sem delongas, como que me chamando à razão (vulgo, mandando-me à fava), levanta-se, arqueia as costas, salta para o tapete com um baque e, altiva e majestosamente, encaminha-se em linha reta para o seu cesto, ou seja, para a sua sesta. e eu, a dona vencida pela tirania do guião biológico do seu gato de estimação - o único a que ele deve obediência, o único que nunca abandonará, o único que cumprirá até ao fim dos seus dias -, eu, um erro de casting, sem dó nem kairos, deixo-me remeter à minha humana insignificância.

10.10.19

9.10.19

construção efémera

duas mulheres saem da praia envoltas numa miríade de folhos e cabelos esvoaçando ao vento. a poucos metros, seguem-nas três crianças, balançando baldes e pás nos braços morenos. da esplanada onde almoço, ao abrigo da minha anónima curiosidade, ouço a mulher de rosto terno e temerário dizer para a de ar bonacheirão, ah, o amor não passa de uma construção. a outra, rindo com um daqueles risos que faz estremecer o corpo todo, particulariza, de uma construção na areia!.

8.10.19

a cauda da baleia

nas histórias – felizes e menos felizes - que contamos e reproduzimos para dar sentido ao que nos acontece, há sempre uma parte que fica perdida, sem que uma miraculosa madalena embebida em chá de tília possa um dia resgatá-la do esquecimento. por outro lado, o que se vive é demasiado grande para poder ser visto de corpo inteiro. na ânsia de o tornar inteligível, repetimos histórias com princípio, meio e fim, quando, na verdade, tudo o que conseguimos vislumbrar não foi mais que a orla imprecisa da cauda de uma baleia na superfície da água. a repetição fixa e cristaliza, mas perpetua também o esquecimento que confina com o nada. e porque o tempo de uma só vida é ridículo, imagino-me por vezes tão perto de uma outra, tão próxima de uma outra consciência, que  me pergunto se o que esqueci pelo desuso não seria afinal mais importante do que consigo recordar.

2.10.19

as palavras que nos definem

quais são as primeiras coisas que pensamos a nosso respeito? que palavras nos definem? são elas que nos escolhem? somos nós que as escolhemos? eu teria seis, sete anos e prestava muita atenção às conversas das pessoas mais velhas, que me pareciam bastante sérias e credíveis. naquele tempo, eu respirava os adultos e não punha sequer a questão de se poderem enganar. por isso, acreditei em tudo o que ouvi naquela distante manhã de inverno. era cedo ainda, eu estava já desperta, quando ouvi sussurros impercetíveis vindos do quarto dos meus pais. dei um salto da cama e, à medida que me aproximava em bicos de pés da porta entreaberta, as palavras murmuradas tornavam-se cada vez mais discerníveis e nítidas. quando as compreendi, fiquei entontecida com três ou quatro que me diziam respeito. suspensa por elas, voltei para a cama, com uma sensação de resignada tristeza. a distância da boca de um pai ou de uma mãe ao ouvido de uma criança é muito curta. e uma criança é uma peça de tecido, ainda sem pregas, costuras ou forma determinada. as palavras fazem pessoas, edificam crenças, constroem mundos. as que escutei naquela manhã foram ditas entredentes, mas causaram um ruído estridente durante grande parte da minha vida. no princípio acreditei nelas, era para mim impossível continuar a viver como se elas não existissem, depois repeti-as vezes sem conta na minha cabeça. a repetição esvazia sentidos e cria o hábito, que é o que impede a dúvida. a identidade é então costurada em função desse primeiro corte. há palavras que se sobrepõem, que estão sempre perto, são eternas, porque se reinstalam no presente, pervertendo e envenenando as seguintes. passam a representar um traço de identidade, tão concreto e imutável como ter olhos castanhos, sardas ou pés pequenos. só décadas mais tarde, pouco a pouco, é que tomei consciência que aquela história era apenas uma história sobre mim. não era a minha história. e que eu, ao contrário do que sempre supus, merecia ser mais do que os outros viam em mim, mesmo que os outros fossem os meus pais, as pessoas - e disso nunca duvidei - que mais me amavam neste mundo.